Resenha: Você nasceu para isso - Michelle Sacks

Editora: Intrínseca
Páginas: 272
Ano: 2019
Gênero: Literatura Estrangeira / Romance

Sinopse: Se perguntarem a sua versão da história, você vai contar a verdade. Ou não?

Sam Hurley, professor, e sua esposa Merry, cenógrafa, trocam os confortos de Nova York por um estilo de vida completamente diferente em uma casinha isolada na Suécia. Apesar do quadro idílico que o casal com um bebê recém-nascido em paisagens de contos de fada representa, problemas com raízes muito profundas ameaçam o relacionamento. Sam, que nunca contou à esposa que na verdade foi demitido da universidade, também mente sobre seu dia a dia na nova cidade. Merry, por sua vez, sempre escuta do marido que nasceu para ser dona de casa, mas não sabe o que fazer com o ódio que alimenta por todas as tarefas cotidianas: a jardinagem sem-fim, a arrumação da casa, o preparo de refeições para a família e os cuidados com um bebê que por ora só parece dar trabalho.
O instável equilíbrio da família se perde por completo com a visita da melhor amiga de Merry, a glamourosa Frank. Ela conhece Merry muito bem, conhece sua história, e agora, com a proximidade, é capaz de ver quem Sam realmente é. Mas Frank tem os próprios segredos, e, à medida que sua narrativa se junta à história do casal, fica claro que ela sofre pelos próprios pecados e talvez não seja capaz – ou não queira – salvar ninguém.
Você nasceu para isso retrata a escuridão que há no cerne dos relacionamentos mais íntimos. Sem heróis e permeada por uma teia de segredos, obsessão e inveja, é um relato violento de vidas que quase nunca são o que parecem e das partes de nós que não somos capazes de admitir.

O livro nos trás Sam e Merry que estão prestes a ganhar um bebê.

Sam era um professor com honras em Nova York, mas devido a alguns problemas em seu trabalho, quis um novo recomeço com sua família na Suécia, em uma casa afastada da cidade onde pudesse ter mais tranquilidade. Enquanto Merry, também tinha uma profissão e aceitou deixar tudo de lado para se dedicar a maternidade e família. Eles parecem aquela "família perfeita", que muitos invejariam.. Mas por detrás de toda essa perfeição percebemos, como sempre, que não é bem assim. Não é nada assim! Eles não estão nem perto de uma família feliz sequer!

Ao se mudarem para a Suécia e com um filho recém nascido, vamos vendo muitas rachaduras na imagem perfeita que aparentavam e isso fica mais nítido com a chegada de Frank, melhor amiga de Merry, pouco a pouco vamos vendo a realidade por trás das aparências; engana-se quem pensa que já viu tudo; na verdade, a coisa vai mais além do que eu mesma imaginei. Tudo na vida dessa família era fake, desde as fotos que Frank recebia, até o comportamento, sentimentos; indo mais fundo, no passado sombrio que os personagens tentam guardar.

Merry não está nada feliz com a maternidade, mas não é nada do tipo "a maternidade não é apenas flores", "estou esgotada ou cansada, precisando de um tempo"; ela realmente odeia ser mãe, odeia ser dona de casa, odeia como seu marido a trata, odeia cada aspecto de sua vida, mas representa a "perfeição" lindamente para aqueles que "olham superficialmente". Resumindo, Merry, odeia tudo que tem e é. Enquanto Sam é um traidor, mentiroso e o pior tipo que se possa imaginar e quando eu digo isso, estou falando bem sério!

No meio disso, Frank percebe, que apesar de Merry estar completamente infeliz, aquela vida, é tudo que ela quer para si, e com isso, ela pouco a pouco vai se colocando como tudo que Merry deveria ser de verdade e ela quer. Frank e Merry, tem um "passado", o que talvez possa estar despertando esse desejo de Frank pela família alheia e talvez por vingança, quem sabe? Mas seria isso motivo para agir como ela age?

Quem estiver pensando que o enredo até aí não trás nada de diferente ou não tem nenhuma motivação para ler, engana-se e vou dizer o motivo:

Sam é um homem que apesar de ser mentiroso e traidor, ama sua esposa Merry, pelo menos isso é o que ele acredita na sua mente deturpada e pretende nos fazer acreditar. Para Sam, as mulheres merecem sofrer ou pagar pelo sofrimento que ele já teve em sua vida, e quando eu digo isso, não estou me referindo a mulheres especificas; esse sentimento de Sam, engloba toda e qualquer mulher em sua vida. O que me prendeu cada vez mais na leitura, foi quando fui tendo conhecimento da real personalidade de Sam. Ele é um homem que eu senti repulsa em todos os momentos; com todo seu machismo e a maneira como ele trata Merry, ainda que em muitos momentos, pareça que ela não se importa ou esteja de acordo completamente com o modo como é tratada ou vive.

Com a chegada de Frank, vemos que Sam está completamente afim dela e o mais nojento é que ele dá a entender que a culpa disso é de Frank; pois ele fica encantado com a maneira de Frank cuidar de seu filho Connor. Mas é o que eu disse, Frank decidiu ser tudo aquilo que se espera de "uma boa mãe" e é exatamente tudo isso que atrai cada vez mais Sam. Talvez todos tenham culpa, ou não.. Só vocês lendo para entender.

Merry, por outro lado, é aquele tipo de personagem que queremos odiar em vários aspectos, mas acabamos por "entender" a forma como ela age, como ela se sente e vamos, mesmo que sem querer, criando certo apego e afeição por ela. Afinal, quem nunca viu, em algum momento, uma mulher que se submete a muitas coisas em prol do que ela acredita ser correto ou do que pregam ser correto? Ela ama Connor, mas é algo estranho, sufocante até, e vive fazendo de tudo para jamais engravidar novamente, apesar de esse ser o desejo firme de seu marido Sam.

Essa história tem uma fórmula simples e ao mesmo tempo que agrada o público, por trazer histórias que poderiam se aproximar da realidade e criar aquela sensação de "já vi isso no mundo real" e com isso Michelle Sacks vai nos conduzindo pelo ponto de vista tanto de Sam, como de Merry, quanto de Frank o que me agrada muito, pois podemos perceber a personalidade de cada um deles como se estivéssemos dentro da cabeça dos personagens. São personagens bem construídos e que tem um passado marcante que acaba refletindo no presente, quando digo isso, me refiro a traumas de infância, sofrimentos, pais relapsos, ausentes ou incapazes de demonstrar amor e aí temos reflexões também, pois podemos comparar o que um ambiente conturbado pode causar na vida de uma pessoa.

O livro é fluído e quando percebemos já viramos a última página, com a sensação de perturbação e incomodo por toda aquela situação em que os personagens nos fizeram visitar durante toda a leitura. Apesar de ter um final bem previsível, isso não atrapalha em nada, pois a autora soube conduzir bem o enredo.

Recomendo.




12 comentários

  1. Oiii Karini

    Nojo desse Sam só de ler a resenha. Realmente a personalidade dele não deve deixar o leitor indiferente de jeito nenhum e ta aí o diferencial do livro. Quando li a sinopse achei que fosse mais do mesmo, porém com a resenha deu pra clarear as idéias e entender que o livro tem seu toque único que pode me surpreender. Vou anotar, quem sabe futuramente confira ele.

    Beijos

    www.derepentenoultimolivro.com

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    1. Senti a mesma repulsa. O cara é um completo idiota. Eu também pensei que era mais do mesmo, mas o livro tem uma pegada que diferencia dos demais.

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  2. menina eu vi uma resenha desse livro e fiquei passada, agora então, nossa senhora!
    Eu gosto de livros com personalidades fortes, daquelas que a gente não consegue só ler o livro, a gente acaba por tomar partido.
    Fiquei morta de vontade de ler esse livro, vou até procurar ele aqui, aproveitar a semana do consumidor da amazon né?!

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    1. Pois então leia. Nesse livro, pelo menos pra mim, foi como sentir isso na pele.. Me irritou e quis eu mesma Pode e resolver e as situações.
      Livros assim são bons, pois nos trazem sentimentos, reflexões e se tornam de alguma maneira memoráveis.
      Beijos.

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  3. Sei lá, uma história de pessoas que se mudam de uma cidade grande e vai pra uma menor, ou menos movimentada, ou o que quer que seja, parece que sempre vem com uma carga de problemas, né? Não que seja clichê! Não acho mesmo... mas fica envolto a esse tipo de acontecimentos.
    Que bom que a leitura é fluída. Gosto muito de livros que pego, e quando menos me dou conta, estou finalizando a leitura em quase um fôlego só.
    Se eu tiver a oportunidade de fazer essa leitura, com certeza vou estar bem disposta a isso.
    Parabéns pela resenha. Beijos

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    1. Eu já li todo tipo de livro quando se trata de mudanças, como nesse pensei logo em recomeço de vida, de algo costumeiro, mas não. Fui surpreendida com relacionamentos tóxicos, que jamais teriam a chance de um recomeço a meu ver. "Pau que nasce torto, não se endireita", já dizia minha avó.

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  4. Oi, tudo bem? Ainda não conhecia o livro e ele me chamou atenção por falar de assuntos tão importantes hoje em dia: a tarefa doméstica e a maternidade. Confesso que tenho um pé atrás com trhillers psicológicos que trazem a mulher como vítima, pois pra mim é bem difícil ler coisas assim, apesar de saber que o mundo real é pior. Mas a narrativa me conquistou, ainda mais pelo contraste da vida perfeita x casamento falido. Gostei muito da sua resenha e acho que teria uma opinião bem parecida com a sua, especialmente em relação ao protagonista. Obrigada pela dica :)

    Love, Nina.
    www.ninaeuma.blogspot.com

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    1. Infelizmente a "receita" é real e o que mais tem por aiaí são mulheres que se submetem a esse estilo ou tipo de vida. Ainda nos dias atuais, ainda no mundo de hoje. Então, acho esse tipo de leitura interessante, pois talvez, para quem está vivendo algo parecido, pode vir a se conscientizar que não é a relação saudável e sim tóxica.

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  5. Já peguei ranço do Sam e nem li este livro hahahah
    Admito que esse livro não me atraiu em nada. Não gostei da capa e a sinopse tbm não foi convincente. Fui conquista pela resenha, pois prova ser mais do que ele promete. Gosto dessa discussão sobre família, relacionamento e romantização de maternidade. Enfim, me interessei pela leitura e espero conseguir dar uma chance futuramente.

    Sai da Minha Lente

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    1. Pois é. Em um primeiro momento o livro não me chamou tanta atenção. Mas eu gosto de ler sobre relacionamentos, família, pois o tipo de livro sempre trás aquele "Q" real, entende? E fiquei satisfeita com a leitura, não imaginei que a autora fosse por caminhos que ela foi e tornou a leitura ainda mais interessante.

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  6. Falou em problemas no passado meu alerta já liga, amo personagens com esqueletos no armário, aí vem uma personagens que odeia ser mãe. Realmente, já vi isso no mundo real, então é uma pena o final ser previsível, o que não muda o fato de eu querer ler esse livro.

    Abraços.

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  7. Olá, eu estou bem curiosa para ler esse livro. Pelo seu post os personagens parecem mesmo bem construídos e essa sensação de que já vimos certos pontos na vida real pode tornar a leitura ainda mais cativante.

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